9. ARTES E ESPETCULOS  8.8.12

1. ARTE  A PRIMEIRA IMPRESSO  A QUE NO FICA
2. TELEVISO  ADORAMOS DETESTAR
3. MSICA  ADEUS  JUVENTUDE  E  PRAIA
4. VEJA RECOMENDA
5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
6. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  OLIMPADA, BOLVIA, GORE VIDAL ETC.

1. ARTE  A PRIMEIRA IMPRESSO  A QUE NO FICA
Monet, Gauguin, Czanne e muito mais: uma mostra fabulosa traz ao Brasil 85 obras do Museu dOrsay de Paris  no maior panorama da arte impressionista j visto no pas.
MARCELO MARTHE

     Em 1863, o imperador Napoleo III fez uma interveno no mundo das artes da Frana. Ele buscava corrigir uma distoro que  quem diria  j ilustrava certa espcie de perigo bem conhecido nos dias de hoje: a tentativa de uma categoria profissional com fortes tintas corporativistas de sufocar a liberdade de expresso. A Academia de Belas-Artes, poderosa associao dos pintores franceses, usou de sua mo pesada para proibir as inovaes de uma gerao que desafiava seus postulados de bom gosto. Quase 3000 obras tiveram sua participao vetada no salo oficial onde os artistas podiam exibir e comercializar seu trabalho. Mas aquele rasgo de autoritarismo indignou o imperador. Napoleo III determinou que se fizesse um evento paralelo para abrigar tais quadros. O Salo dos Rejeitados passaria  histria como o pontap inicial da arte moderna. Na nau dos repudiados estavam nomes como douard Manet, Paul Czanne e Camille Pissarro  a linha de frente dos artistas que puseram abaixo as convenes acadmicas. Inaugurava-se a a arte impressionista, responsvel por uma injeo de frescor na pintura que se desdobraria em vrias escolas at a virada do sculo XX e prepararia o terreno para o modernismo. A Frana vivia seu auge como imprio: Paris passava pela transformao urbanstica do baro Haussmann e era o centro mundial da boemia. Entre os anos 1850 e o incio da I Guerra, em 1914, Paul Gauguin, Vincent van Gogh, Claude Monet, Toulouse-Lautrec, Edgar Degas  alm dos mestres j citados e de outros tantos criadores  se refugiaram em atelis na capital francesa e em cidadezinhas do interior. Boa parte de sua produo integra hoje o acervo do Museu dOrsay, instalado numa antiga estao de trem s margens do Rio Sena.  de l que vm as 85 obras de uma mostra fabulosa. Em cartaz a partir do sbado 4 no Centro Cultural Banco do Brasil, em So Paulo, e com chegada ao Rio de Janeiro prevista para outubro, Impressionismo: Paris e a Modernidade, orada em 10,9 milhes de reais, oferece o mais completo panorama j visto por aqui de uma era de ouro da arte. Em termos de efervescncia e influncia, o perodo s  comparvel ao Renascimento italiano, resume a conservadora-chefe do dOrsay, Caroline Mathieu.
     Grosso modo, a liberdade criativa  o que une os artistas das trs geraes em foco: os impressionistas propriamente ditos, os ps-impressionistas e os chamados nabis  a terceira onda do movimento, cujos expoentes se autodenominavam com esse termo, que significa profetas em hebraico. Artista mais velho que no se enquadrava em nenhum rtulo, Manet foi o grande inspirador dos primeiros impressionistas. Em telas como O Tocador de Pfano, de 1866, ele desdenhou dos ditames fossilizados da academia. A pintura tradicional se debruava com solenidade sobre os temas histricos e mitolgicos. A perspectiva deveria buscar sempre a imitao do mundo tridimensional  e as pinceladas e cores tinham de ser discretas. Na tela de Manet, d-se o contrrio: o modelo  um menino feioso que toca seu pfano com os dedos sujos. As cores so chapadas e se espalham em grossas pinceladas. A perspectiva  absolutamente plana. Na viso da crtica do tempo de Manet, aquilo era arte de m qualidade, Mas sua lio foi compreendida e muito bem absorvida pelos primeiros impressionistas. 
     O nome do movimento derivou de um insulto. Diante de uma tela de Claude Monet, Impresso, Nascer do Sol, de 1872, um crtico atacou o que considerava uma arte incapaz de ir alm de uma percepo rasa dos motivos retratados. A ttulo de provocao, o pintor e seus pares como Pierre-Auguste Renoir, autor de oito telas da mostra  assumiram-se como impressionistas. Para investigar os efeitos da luz sobre a retina humana, utilizavam cores puras e no as misturavam nos quadros. A obra de Monet exemplifica tal tcnica. Quando se olham de perto suas pinturas, v-se apenas uma mirade convulsiva de pinceladas coloridas. Quanto mais o espectador se afasta, porm, melhor distingue o conjunto da cena. A tela impressionista no se rende  primeira impresso. Assim se d com quatro trabalhos magnficos que podero ser vistos em So Paulo. Entre estes inclui-se um de sua fase madura e mais incensada, quando Monet se devotou a captar as nuances da cor e da incidncia da luz sobre as plantas aquticas do lago de sua casa no campo. A vertigem tica das obras do fim de sua vida era ressaltada por um problema fsico: como sofria de catarata, suas ninfetas foram se tornando cada vez mais borradas e vagas.
     Apesar do escndalo inicial, em questo de duas dcadas os impressionistas j comeavam a ser assimilados. No meio-tempo, curiosamente, as geraes que lhes sucederam passaram a opor-se ao que viam como excesso de hedonismo dos antigos radicais. Surgiu assim o ps-impressionismo de Gauguin e Van Gogh. O francs que se intitulava um pintor selvagem e o holands que no batia bem dos pinos tiveram uma convivncia explosiva, que desaguou no famoso episdio em que Van Gogh cortou a prpria orelha. Os ps-impressionistas tinham estilos muito pessoais, mas comungavam o profundo respeito pela histria da arte, diz Guy Cogeval, presidente do Museu dOrsay. Quase na virada do sculo XX, a corrente foi substituda pelos nabis, como Pierre Bonnard e Edouard Vuillard, que se diferenciavam pela viso de mundo catlica e pela influncia simbolista.
     Aquela altura, a revoluo da arte moderna j estava em marcha. Os quadros de Manet e Czanne no mais despertavam furor nas massas  as quais, em outros tempos, foram ao Salo dos Rejeitados vai-los. E sua popularidade s cresceria com o avanar do sculo XX. Houve uma mozinha irnica do destino nisso. Se a arte do Japo foi uma referncia para os impressionistas, no ps-guerra os milionrios daquele pas externaram sua paixo por esses pintores pagando caminhes de dinheiro pelas suas obras. Em 1990, o Retrato do Dr. Gachet, de Van Gogh, foi comprado por um magnata japons pelo preo recorde de uma obra de arte at ento, 82,5 milhes de dlares. A popularidade se traduz tambm em filas: em 1997, uma mostra de Monet foi vista por cerca de 1 milho de pessoas no Rio e em So Paulo. O CCBB paulistano montou um esquema especial para que o publico esperado, de at 600.000 pessoas, no congestione os quatro andares em que estaro espalhadas as telas. A iluminao das ruas da rea foi melhorada s para a comodidade e segurana dos visitantes. Assim como a Paris dos impressionistas, So Paulo ter seu momento de cidade-luz.

PINTURA SELVAGEM
Paul Gauguin (1848-1903) retratou o interior da Frana antes de suas clebres andanas pelo Taiti. Mas fez a tela Camponesas da Bretanha em 1894, ao retornar  regio aps uma de suas excurses tropicais. Detalhes como a pele morena das mulheres mostram como o Taiti coroou sua busca por uma arte primitiva.

A CONSTRUO DO MUNDO
Se os primeiros impressionistas se devotavam  explorao da luz, Paul Czanne (1839-1906) tinha outra obsesso.  Ele buscava desnudar o mundo por meio de suas formas  revelando, paradoxalmente, quanto sua essncia  intangvel. No Auto-Retrato do Artista com Fundo Rosa, de 1875, a convulso de pinceladas torna sua fisionomia fantasmagrica.  Na natureza-Morta em Sopeira, de 1877, h a iluso de objetos e frutas serem vistos por ngulos diversos sobre um plano radicalmente bidimensional, em uma antecipao do cubismo.

NOVE SEMANAS DE AMOR  E DIO
Paul Gauguin (1848-1903) realizou Les Alyscamps em 1888, quando convivia com o holands Van Gogh no sul da Frana.  O quadro  tpico do sintesismo, tcnica que se propunha a reduzir as linhas e cores daquilo que se retratava a uma imagem capaz de espelhar os sentimentos do artista.  A melancolia da vista fantstica de uma necrpole romana do sculo III d uma idia do clima ruim entre os dois pintores: naquelas nove semanas, eles foram da amizade ao rompimento.

A DANA DOS ZUMBIS
No soberbo O Salo de Dana em Arles, de 1888, notam-se as influncias absorvidas pelo holands Vicent van Gogh (1853-1890).  O balco acima dos danarinos e o coque das mulheres na parte inferior da tela aludem  arte japonesa.  O contorno em preto das figuras  emprstimo de uma tcnica muito empregada por seu colega Paul Gauguin, o cloisonismo.  Mas o que prevalece  a alma atormentada de Van Gogh.  O ambiente est saturado de pessoas de olhos fechados que mais parecem mortas-vivas.  S uma mulher mira os espectadores, com um olhar esverdeado que causa sensao de teror claustrofbico.

O CISNE E A MANTEDA
O belga Alfred Stevens (1823-1906) fez a ponte entre o realismo e o impressionismo.  Suas pinceladas so mais livres que as da arte tradicional de ento.  Mas, ao contrrio de um Monet, ele mantm um p na sobriedade. A manteda de O Banho, de 1867, olha distrada para uma torneira em forma de cisne que  pura sugesto flica.

O ILUSIONISTA DOS PINCIS
O termo impressionismo nasceu da referncia pejorativa de um crtico ao ttulo de um quadro de Claude Monet (1840-1926). Havia a um tanto de azedume premonitrio: nenhum outro artista seria to identificado com o estilo quanto ele. De perto, as obras de Monet so um salpicado de pinceladas em cores que no se misturam. Mas, a distncia, seu gnio se revela: a iluso tica produzida pela fuso dos milhares de pinceladas compe imagens poderosas. Na mostra haver telas como A Estao de Saint-Lazare, de 1877, em que Monet captou uma Paris moderna. Na velhice, quando vivia no campo, a obsesso por seu jardim com plantas aquticas deu origem s obras mais famosas do pintor, como O Lago com Ninfeias, de 1899.

QUANTA GRAA EM MOVIMENTO
Edgar Degas (1834-1917) passava os dias em ensaios de bal.  Ao transportar para suas telas a graa das bailarinas, construiu toda uma obra extraordinria.  Como atesta Bailarinas Subindo a Escada, de 1886/90, ele ia alm do superficial ao realar detalhes de simbologia sutil.  O piso imenso lembra que as bailarinas, apesar de angelicais, eram humanas  e teriam de superar limites para atingie seus movimentos esvoaantes.

O PECADOR ORIGINAL
Embora pertencesse  gerao anterior  dos impressionistas, Edouard Manet (1832-1883) foi o grande inspirador do movimento.  Alm de um rematado causador de escndalos: a prostituta nua de sua tela Olympia abalou a Paris dos meados do sculo XIX. O Tocador de Pfano, de 1866, era um trabalho mais comportado, mas, ainda assim, a ousadia esttica e temtica de Manet provocou seu veto num salo de arte acadmica.  As mesmas caractersticas que levavam o quadro a ser visto como tosco  a falta de volume e profundidade, as cores compactas, o modelo feioso  prenunciavam a arte moderna.  A Garonete, de 1878/79, expe a boemia da capitam francesa.


2. TELEVISO  ADORAMOS DETESTAR
Certos programas tm, entre seus espectadores mais fiis, pessoas que consideram o que esto vendo uma porcaria.  o fenmeno chamado em ingls de hatewatching.
BRUNO MEIER

     Lanado em fevereiro nos Estados Unidos pela rede NBC (e exibido no Brasil pelo Universal Channel), Smash pretende mostrar o que acontece nos bastidores de um grande musical da Broadway. Embora a tentativa de embarcar no sucesso do musical adolescente Glee fosse bvia, a srie at que prometia. Na sua produo, afinal, havia dois nomes: o ubquo Steven Spielberg e Theresa Rebeck, autora com larga experincia na televiso e no teatro de Nova York. No primeiro episdio, um assistente de produo apresenta a ideia de um musical sobre Marilyn Monroe como a salvao da lavoura para o marasmo que teria tomado conta da Broadway  o que  irnico, considerando-se o marasmo que Smash levou ao ar. Protagonizada pelos insossos Debra Messing (a eterna Grace da comdia Will & Grace) e Christian Borle, a srie enfrentou as previsveis crticas negativas, passou por mudanas na equipe de redao (com Theresa Rebeck ejetada) e j na primeira temporada recorreu a convidados especiais (Uma Thurman, em cinco episdios) para levantar a peteca do cho. A audincia foi at expressiva: 6,7 milhes de espectadores por semana. Uma segunda temporada j est confirmada. No se trata propriamente de uma srie impopular, mas  daqueles programas a que as pessoas assistem em segredo, comprazendo-se envergonhadamente na cafonice. E  tambm o gnero de atrao que congrega um tipo particular de espectador: aquele que assiste para odiar. A atitude foi muito bem delineada em um texto sobre Smash publicado na revista The New Yorker Por que eu ainda altero a minha rotina para assistir a um programa que me deixa to brava?, perguntava-se a crtica Emily Nussbaum. Em ingls, j surgiu uma expresso para definir esse prazer masoquista: hatewatching, combinao das palavras odiar (hate) e assistir (watch).
     Programas apelativos ou porcarias de auditrio s vezes tm aquele apelo do acidente de carro:  feio, triste, brutal, mas, se voc est passando por perto ou zapeando pelo canal, no h como deixar de dar uma espiada. O hatewatching, porm,  uma prtica deliberada, no acidental, que congrega uma estranha audincia cativa do programa odiado. Requer fidelidade, e nesse sentido  um parente prximo do (Aldo Rebelo nos perdoe por mais uma expresso em ingls) guilty pleasure, o prazer culpado oferecido, por exemplo, pelo kitsch melodramtico de um Dallas (na nova ou na antiga verso, tanto faz). Com frequncia, o deleite perverso do hatewatching s se consuma nas redes sociais, onde esses fs doentios encontram seus pares para, em conjunto, esculachar o episdio que acabaram de ver.
     Novidades que vm cercadas de muita badalao mas no correspondem  expectativa suscitada so boas candidatas a esse tipo de audincia.  o caso de Smash e tambm de outra srie produzida por Spielberg  a fico cientfica Falling Skies, na qual uma famlia americana tpica (ou tipicamente spiel-berguiana) se bate contra invasores aliengenas de aparncia aracndea. A audincia da srie foi baixa, mas Spielberg, teimoso, garantiu que ela tivesse uma segunda temporada. Em outros casos, o espectador acompanha e odeia aquela srie que j teve dias melhores. Nas primeiras temporadas, True Blood, da HBO, valia-se dos vampiros para encenar uma alegoria muito ps-moderna sobre a difcil convivncia com a diversidade. Aos poucos, porm, o comentrio social foi se esvanecendo para dar lugar a um show sobrenatural trash, com bruxas e fantasmas, e muitas cenas de sexo ensanguentado e canastro. O antigo f talvez assista  quinta temporada da srie criada por Alan Ball na esperana de que ela volte aos trilhos. Mas, como no h mostras de que isso possa acontecer, s lhe resta divertir-se detestando a patuscada absoluta em que True Blood se converteu. Na TV, o que  ruim, afinal, s tende a piorar. Para delcia de alguns espectadores.

SMASH 
Por que as pessoas detestam: com a pretenso de ser um Glee crescidinho, a srie mostra bastidores de um musical. Muita cantoria, dilogos rasos e cafonice profunda
Por que assistem: enquanto ouvem novas verses de Michael Bubl, os espectadores se comprazem em dizer que essa srie  pior que Glee  que j desandou faz tempo

TRUE BLOOD
Por que as pessoas detestam: se no incio havia um certo comentrio social nesta srie de vampiros, ela agora virou s um Carnaval sobrenatural, com bruxas, lobisomens, fantasmas  e at fadinhas
Por que assistem: os espectadores j entraram no piloto automtico: depois de acompanharem quatro temporadas, no querem mais desistir da patacoada


3. MSICA  ADEUS  JUVENTUDE  E  PRAIA
Brian Wilson, mentor dos Beach Boys, volta ao grupo para lanar seu melhor disco em anos, com canes cheias de nostalgia por uma Califrnia que no existe mais.
SRGIO MARTINS

     Na apresentao dos Beach Boys no festival New Orleans Jazz & Heritage, em abril, no estado americano da Louisiana, o cantor e compositor Brian Wilson parecia um zumbi no palco. Ou, pelo menos, seu comportamento aptico e sua fisionomia inexpressiva faziam pensar num zumbi. J o penteado armado, este estava mais para pardia de vampiro (a associao imediata seria com o comediante Leslie Nielsen em Drcula  Morto Mas Feliz). Havia marcaes no cho para que Wilson soubesse onde se postar na hora dos agradecimentos. Quando ele lanou um olhar perdido para a cmera que insistia em dar closes em seu rosto, houve quem imaginasse que sua participao se encerraria ali. Mas ento, do nada, ele despertou: ao piano, tocou e cantou, com emoo, Sail On, Sailor, cano que escreveu inspirado em Ray Charles. Desde 1964, quando teve um colapso nervoso (mais tarde diagnosticado como manifestao de distrbio bipolar) no avio que o transportava de Los Angeles para Houston, Wilson alterna perodos de esquisitice com lances de gnio. Suas excentricidades incluram gravar risos das pessoas  para um disco de humor, que nunca saiu  e instalar o piano de sua casa em uma caixa de areia, que representaria a infncia, a fase mais feliz da vida. Nos momentos de fertilidade criativa, porm, Wilson fez, com sua banda, a trilha sonora da juventude americana da dcada de 60. Ou, pelo menos, do lado mais luminoso, otimista e inocente daquela dcada. Eram msicas sobre praia, surfe, garotas de biquni e carros envenenados. O disco que os Beach Boys lanaram neste ano, depois de dezesseis anos sem gravar em estdio, na aparncia revisita todos esses temas antigos. Ser ridculo, para uma banda to avanada em idade  Wilson tem 70 , continuar cantando sobre o estilo de vida praiano da Califrnia da dcada de 60? De forma alguma: Thats Why God Made the Radio  uma despedida, um ltimo e saudoso olhar sobre o mundo ensolarado que os Beach Boys cantaram.
     Brian Wilson criou os Beach Boys ao lado dos irmos Carl e Dennis (j mortos), do primo Mike Love e do amigo Al Jardine. Na origem, era uma banda de surf music, rock caracterizado pelas guitarras rpidas e pelos temas praieiros. As ricas harmonias vocais concebidas por Wilson, porm, sempre colocaram os Beach Boys muito acima da mdia dos praticantes desse gnero. A vida festeira e despreocupada descrita nas letras da banda no correspondia  realidade dos msicos: eles brigaram muito, tiveram problemas com drogas e sofreram com a ingerncia tirnica de Murry Wilson, pai de Brian, Carl e Dennis. Como seria de prever em uma trajetria com tantos solavancos, a formao original passou por vrias alteraes ao longo das dcadas. Depois de seu colapso, em 1964, Wilson continuou compondo e gravando, mas foi substitudo nas turns pelo tecladista Bruce Johnston. Grande compositor, Wilson sempre foi a alma criativa dos Beach Boys. Mas coube a Love e a Johnston a responsabilidade de manter a banda viva e esporadicamente atuante.
     O rito de passagem da juventude para a maturidade foi Pet Sounds, de 1966, disco no qual Wilson chegou ao pice de seu talento como melodista. Seguiu-se uma espcie de disputa transcontinental do rock, entre os Beach Boys e os Beatles. Revolver tambm de 1966, foi a resposta de Lennon e McCartney a Pet Sounds. Wilson tentou revidar no ano seguinte, com Smile, uma espcie de sinfonia pop americana, mas desta vez os ingleses estavam um passo adiante, com Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Foi a partir da que Wilson, com o estado mental j constitutivamente frgil abalado ainda mais pelo uso de drogas, entrou em parafuso. Ele abandonou os Beach Boys. Voltaria  banda e a deixaria de novo mais umas quantas vezes, at retomar neste ano, para um disco que supera a maioria das criaes de sua carreira-solo.
     A maior parte das faixas de Thats Why God Made the Radio  assinada por Wilson em parceria com o letrista Joe Thomas. Em Think about the Days e Summers Gone, a banda veterana mostra que ainda  capaz de afinadssimas harmonias vocais. As canes falam de emissoras de rdio que tocam baladas e msicas singelas, de passeios romnticos  beira-mar, de uma Califrnia que no existe mais.  o lbum de um homem que chega  velhice e reconta momentos importantes da juventude  e, aqui, a nostalgia de From There to Back Again, que fala de um dia perfeito de vero,  insupervel. No embalo do lanamento, Mike Love tem se esforado para manter a banda na estrada, agendando shows sem Wilson. No se descarta, portanto, que os Beach Boys venham a lanar ainda outros discos. Mas Thats Why God Made the Radio daria uma linda despedida  ou, pelo menos, o adeus de Brian Wilson  banda que ele tanto amou. 


4. VEJA RECOMENDA
DISCO
LOCKED DOWN, DR. JOHN (WARNER)
 Maior representante do piano funkeado de Nova Orleans, Dr. John h tempos devia um disco  altura do seu talento. No que seus ltimos lanamentos tenham sido catastrficos Tribal, de 2010, trazia msicos ilustres como o virtuose do blues Derek Trucks. Mas faltavam a eles o atrevimento e a jambalaya sonora dos lbuns gravados entre 1968 e 1973. Esses elementos voltaram por obra de Dan Auerbach, guitarrista do Black Keys, grupo em ascenso no rock alternativo dos Estados Unidos. Auerbach levou Dr. John (nome artstico de Mac Rebennack) para seu estdio em Nashville, onde injetou sangue novo na msica do veterano, com a participao do baixista Nick Movshon (que tocou com Amy Winehouse), da Antibalas Afrobeat Orchestra e do quarteto vocal The McCrary Sisters. Locked Down, resultado desses encontros,  um disco vibrante, bom para danar, e to spero e agressivo quanto rock de garagem. Apesar do ritmo arrebatado, as letras relembram a rdua realidade que Nova Orleans vive desde o furaco Katrina. O cenrio de desolao pintado em Revolutions, que fala de viciados em crack e de estupros,  dos mais pungentes do disco.


DVDs
A GUERRA EST DECLARADA (LA GUERRE EST DCLARE, FRANA, 2011. IMOVISION)
  corajosa a premissa da qual parte este filme da diretora francesa Valrie Donzelli, escrito a quatro mos com seu ex-marido Jrmie Elkam: usando os nomes de Juliette e Romo, eles interpretam um casal que se apaixona e, rapidamente, tem o primeiro filho. O nascimento da criana traz uma dose de tenso: Adam chora muito e parece um pouquinho atrasado no seu desenvolvimento motor. Uma particularidade da criana ou sintoma de algo mais srio? E um choque, para os jovens pais, descobrir que a segunda hiptese  a verdadeira. Adam tem um tumor cerebral agressivo, de difcil tratamento e prognstico no exatamente animador. Juliette e Romo, assim como seus familiares e amigos, se mobilizam, pelos meses e anos seguintes, para se manter fortes e ativos e assim garantir que o beb tenha a melhor chance possvel de cura. O tema avassalador recebe de Valrie e Elkam um tratamento vigoroso, sem sentimentalismo nem autopiedade  o qual, juntamente com o estilo semidocumental adotado, o eleva de forma decidida para muito alm da duvidosa categoria do filme de doena.

LIVE FROM THE ARTISTS DEN, ROBERT PLANT & THE BAND OF JOY (UNIVERSAL)
 A banda que gravou este show no existe mais: o DVD mal havia sido lanado quando Robert Plant anunciou seu novo projeto, The Sensational Space Shifters. Embora a inquietude artstica do ex-cantor do Led Zeppelin merea aplausos, o fim da Band of Joy  algo a lamentar. Junto dela, Plant fazia um estudo srio sobre as razes da msica folk, o qual se traduzia, por exemplo, nas suas releituras de composies do guitarrista ingls Richard Thompson e do grupo americano Los Lobos. Plant imps essa sonoridade at a clssicos do Led Zeppelin como Black Dog e RocknRoll. Como no consegue mais atingir as notas agudas que dava nos anos 70, ele recrutou a cantora country americana Patty Griflin (ela agradou tanto que virou namorada de Plant e o acompanha na Sensational Space Shifters). Live from the Artists Den, foi gravado no War Memorial Auditorium, em Nashville, que anteriormente abrigou a sinfnica da cidade e o Grand Ole Opry o principal programa de rdio da histria do country. Plant e Patty tm uma sintonia mpar, mas quem rouba o show  o guitarrista Buddy Miller. lenc,a do country rock e solista de elegncia rara nos dias de hoje.

LIVROS
O INSTINTO DE MORTE, DE JED RUBENFELD (TRADUO DE GEORGE SCHLESINGER; PARALELA; 400 PGINAS; 36,90 REAIS)
 Em sua estreia literria, em 2006 com A Interpretao do Assassinato, o americano Jed Rubenfeld foi imediatamente acusado de seguir a frmula de O Cdigo Da Vinci  a do thriller enfeitado com pseudoerudio. No era o caso. A trama que tinha Sigmund Freud como um dos personagens se revelou um sucesso de pblico, mas tambm conquistou os crticos. Agora Rubenfeld volta a investir no mesmo gnero, explorando um ataque terrorista ocorrido em Manhattan em uma certa manh de setembro. As semelhanas com os atentados de 2001 acabam a, porque o episdio narrado aconteceu em 1920, nunca foi esclarecido e permanece como um dos grandes mistrios da histria americana. A partir de trs personagens  um cirurgio, um policial e uma bela francesa , o autor liga os acontecimentos a uma perigosa intriga internacional iniciada na I Guerra. Freud novamente est em cena  em uma ponta , junto com a cientista Marie Curie, pioneira no estudo da radioatividade. Ironias de um autor genuinamente erudito e dono de um senso de suspense hipnotizador.

OS DEIXADOS PARA TRS, DE TOM PERROTTA (TRADUO DE RUBENS FIGUEIREDO; INTRNSECA; 320 PGINAS; 39,90 REAIS)
 Com a custica stira Criancinhas (adaptada para o cinema como Pecados ntimos), Tom Perrotta filiou-se a uma tradio forte da fico americana moderna: a dos cronistas do subrbio, como John Updike. Neste novo romance, Perrotta se desvia da rota realista para compor uma histria com tons meio fantsticos, meio farsescos. A histria tem lugar em um mundo que passou por um quase apocalipse: vrias pessoas simplesmente desapareceram no ar, sem deixar trao. H seitas que veem no evento uma verso da ideia, muito forte em certas igrejas americanas, de que os bons cristos um dia sero arrebatados da Terra para subir aos cus, deixando o mundo para os pecadores. Entre as pessoas que sumiram, porm, havia muulmanos, hindus, gays e outras figuras que no se enquadram no rgido figurino cristo puritano. Perrotta centra a narrativa sobre a famlia do prefeito de uma pequena cidade da Nova Inglaterra  pessoas comuns tentando dar sentido ao que parece escapar a toda explicao.


5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
2. Herana  Christopher Paolini. ROCCO
3. O Casamento  Nicholas Sparks. ARQUEIRO
4. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 
5. A Guerra dos Tronos  George R. R. Martin. LEYA BRASIL 
6. Jogos Vorazes  Suzanne Collins. ROCCO 
7. Manuscrito Encontrado em Accra  Paulo Coelho. SEXTANTE
8. O Filho de Netuno  Rick Riordan. INTRNSECA 
9. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
10. A Esperana --  Suzanne Collins. ROCCO

NO FICO
1. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO
2. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL
3. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
4. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO
5. 1808  Laurentino Gomes. PLANETA
6. 1822  Laurentino Gomes. NOVA FRONTEIRA 
7. Guia Politicamente Incorreto da Amrica Latina  Leandro Narloch e Duda Teixeira. LEYA BRASIL 
8. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO
9. O Livro da Filosofia  Vrios. GLOBO 
10. Mentes Ansiosas  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
2. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
3. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
4. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
5. Casamento Blindado  Renato e Cristiane cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
6. A Parisiense  Ines de la Fressange. INTRSECA 
7. Orfandades  O Destino das Ausncias  Pe. Fbio de Melo. PLANETA 
8. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
9. O Poder dos Quietos  Susan Cain. AGIR 
10.  Tudo To Simples  Danuza Leo. AGIR


6. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  OLIMPADA, BOLVIA, GORE VIDAL ETC.
     O Hino Nacional vive seu grande momento em Olimpadas. No h ocasio em que venha mais a propsito. Talvez isso no seja to evidente para americanos, chineses, russos ou ingleses, acostumados a ouvir seus hinos muitas vezes, na competio. Para os brasileiros, que pouco ouvem o seu, a raridade ressalta a especificidade do momento. No  que o Hino Nacional engrandea as Olimpadas. Ao contrrio, as Olimpadas  que engrandecem o Hino Nacional. Naquele momento, ele recupera seu significado e justifica sua razo de ser.
     O pior momento do Hino Nacional  quando  tocado antes dos jogos dos campeonatos disputados rotineiramente no Brasil. Por efeito de estpida lei estadual que, salvo engano, primeiro foi baixada em So Paulo, e em seguida copiada em outros estados, o hino tem de ser executado antes de qualquer competio esportiva. No se tinha inventado ainda maneira mais segura de torn-lo banal e inoportuno. Hino Nacional  ferramenta para ser utilizada com parcimnia. As Olimpadas oferecem um momento adequado e justo para que ele provoque os efeitos de que  capaz.
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     O mensalo no  o primeiro escndalo a envolver pessoas situadas no corao do poder, no Brasil, mas  o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituies. Ao atentado da Rua Tonelero, em 1954, em que morreu o major Vaz e foi ferido o jornalista Carlos Lacerda, por obra de agentes subalternos do governo Getlio Vargas, seguiram-se um inqurito ilegalmente conduzido por militares e uma gritaria da oposio que preparavam o golpe. No processo de impeachment de Fernando Collor, em 1992, pairavam desconfianas de que o caso pudesse desandar em ameaa s recm-conquistadas liberdades. O fato de no se preverem catstrofes semelhantes para o atual julgamento representa uma coisa boa, a contrastar com as tantas ruins que o episdio evoca.
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     Uma frase do ministro das Relaes Exteriores da Bolvia, David Choquehuanca, causou confuso na semana passada. Ele fez votos para que o dia 21 de dezembro, o ltimo do calendrio maia, marque o fim da Coca-Cola na Bolvia e o incio do monocochinche, uma bebida popular no pas. O ministro tomava carona nos augrios do calendrio maia para profetizar o fim do egosmo, do individualismo e da diviso do pas, simbolizados na troca da Coca-Cola pela bebida nacional. Era uma alegoria, mas foi interpretada como notcia de que o governo iria proibir a Coca-Cola na Bolvia, e como tal circulou em sites brasileiros. O.k., houve engano. Mas as palavras do ministro indicam que a Coca-Cola continua no centro das fantasias bolivarianas do governo Evo Morales.
 curioso que a declarao do boliviano venha  luz na mesma quadra em que o novo presidente da Coreia do Norte, o jovem Kim Jong-un, surpreendeu o mundo com uma festa em que dividia as atenes com Mickey Mouse, Branca de Neve e o ursinho Puff. O fim do calendrio maia pode estar indicando que os dois pases se preparam para permutar posies. Enquanto a Bolvia imbica no rumo de tornar-se uma Coreia do Norte dos Andes, a Coreia do Norte apresta-se para tornar-se, pelo menos, uma Bolvia do mar da China.
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     Grande Gore Vidal. O escritor americano falecido na semana passada tinha a veia dos grandes provocadores. O grande e nunca mencionado mal no centro da nossa cultura  o monotesmo, defendeu, numa palestra de 1992, em Harvard. Um Deus do cu est no centro das grandes religies monotestas. Elas (essas religies) so literalmente patriarcais  Deus  o pai onipotente, da o desprezo pela mulher por 2000 anos nos pases afetados pelo Deus do cu e seus delegados machos na terra. O Deus do cu  ciumento, claro. Requer total obedincia. (...) Em ltima anlise, o totalitarismo  a nica poltica que serve aos propsitos do Deus do cu. Qualquer movimento de natureza liberal ameaa sua autoridade e a de seus delegados na terra. Um Deus, um rei, um papa, um chefe na fbrica, um pai-lder na casa da famlia. Os grandes provocadores assacam com espantosa sem-cerimnia contra as verdades estabelecidas, e nisso Gore Vidal era um campeo. (O colunista agradece ao amigo Jos Roberto Whitaker Penteado por lhe ter revelado a palestra de Gore.)

